Alexandre

 

Apresentou-se como o mais moderno entre os “irmãos heterônimos”. E, pode-se dizer também, o mais indisciplinado. Homem voltado para o impulso das emoções, para o presente, para as modernidades que o mundo apresentava, aberto à realidade, algo contrário aos seus dois irmãos, Caeiro e Reis, mais voltados à natureza bucólica e ao paganismo. Nesse viés, Álvaro fez o papel do heterônimo mais próximo às tendências do início do modernismo europeu, influenciado principalmente pela geração futurista.

Assim como Reis, Álvaro escreveu algumas odes, mas, ao contrário daquele, muito longas, sem a linguagem cuidadosa do outro – em alguns versos até com uso de onomatopéias e sons guturais representados pelo uso repetitivo de algumas letras –, sem exaltação aos deuses, e com um pouco de ironia que lhe era peculiar, de maneira mais despojada, nem por isso descompromissada.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar

Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,

Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,

Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!

Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!

Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!

Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!

Eia todo o passado dentro do presente!

Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!

Eia! eia! eia!.

                (Álvaro de Campos, In: Panorama da Literatura Portuguesa, 1997).

Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,

Velocidade entra por todas as idéias dentro,

Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,

Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,

Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,

Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado

Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,

Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,

Senhor supremo da hora européia, metálico cio.

Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!.

                                   (Poesias de Álvaro de Campo, 1983, p. 87).

 

A poesia de Álvaro de Campos pôde ser apresentada em três distintas fases:

A primeira, a fase do Opiário – poema dedicado a Mário de Sá-Carneiro, o qual apresentava algumas tendência de Campos. Foi a fase ligada à poesia do final do século XIX, ainda influenciada pelo simbolismo – movimento anterior ao modernismo na literatura. Escrevia Campos ainda com métrica, com rima, com quadras, estrofes de quatro versos, e já se mostrava insatisfeito e amargurado.

Ao toque adormecido da morfina

Perco-me em transparências latejantes

E numa noite cheia de brilhantes

Ergue-se a lua como a minha Sina.

(…)

Eu fingi que estudei engenharia.

Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.

Meu coração é uma avozinha que anda 

Pedindo esmola às portas da Alegria.

(…)

Não tenho personalidade alguma.

É mais notado que eu esse criado

De bordo que tem um belo modo alçado

De laird escocês há dias em jejum.

(…)

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!

Pudesse a gente desprezar os outros

E, ainda que co’os cotovelos rotos,

Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

(…)

E o que quero é fé, é calma,

E não ter estas sensações confusas.

Deus que acabe com isto! Abra as eclusas

E basta de comédias na minh’alma!.

                                   (Poesias de Álvaro de Campos, 1983, pp. 20-24).

 

A segunda fase foi a que mais refletiu a influência do futurismo no poeta. A fase mais Whitmaniana, mais mecanicista, na qual se destacavam as odes por ele escritas. A partir dessa fase, seus poemas não mais apresentavam resquícios do simbolismo. Foram de versos livres e longos, marcados pela oralidade, próximos à prosa.

À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!.

                (“Ode Triunfal”. Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 25).

 

Tremo com frio da alma repassando-me o corpo

E abro de repente os olhos, que não tinha fechado.

Ah, que alegria a de sair dos sonhos de vez!

Eis outra vez o mundo real, tão bondoso para os nervos!

Ei-lo a esta hora matutina em que entram os paquetes que chegam cedo.

      

Já não me importa o paquete que entrava. Ainda está longe.

Só o que está perto agora me lava a alma.

A minha imaginação higiênica, forte, prática,

Preocupa-se agora apenas com as coisas modernas e úteis,

Com os navios de carga, com os paquetes e os passageiros,

Com as fortes coisas imediatas, modernas, comerciais, verdadeiras.

                (“Ode Marítima”. Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 60).

 

E a terceira fase da poesia de Campos foi a de maior descontentamento com a vida e com o mundo. A fase do sono e do cansaço, com algum tom surrealista, e que mais equilibrada se apresentou, principalmente em poemas como Lisbon Revisited (1923, 1926), Apontamento, Poema em Linha Reta, Aniversário e Tabacaria. Poemas que retratavam o inconformismo, a fragilidade humana, a amargura e a desilusão pela existência. Demonstravam momentos de total niilismo, de apego à idéia de morrer para se livrar do que o atormentava.

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

                                   (“Tabacaria”. Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 105).

 

Não ser nada, ser uma figura de romance,

Sem vida, sem morte material, uma idéia,

Qualquer coisa que nada tornasse útil ou feia,

Uma sombra num chão irreal, um sonho num transe.

                                   (Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 92).

 

Não: não quero nada.

Já disse que não quero nada.

 

Não me venham com conclusões!

A única conclusão é morrer.

 

Não me tragam estéticas!

Não me falem em moral!

      

Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas

Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!)

Das ciências, das artes, da civilização moderna!

 

Que mal fiz eu aos deuses todos?

 

Se têm a verdade, guardem-na!

 

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.

Fora disso sou doido, com todo o direto a sê-lo.

Com todo o direto a sê-lo, ouviram?

 

Não me macem, por amor de Deus!

 

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?

Queriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer coisa?

Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.

Assim, como sou, tenham paciência!

Vão para o diabo sem mim,

Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!

Para que havemos de ir juntos?

 

Não me peguem no braço!

Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!

Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

 

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –

Eterna verdade vazia e perfeita!

Ó macio Tejo ancestral e mudo,

Pequena verdade onde o céu se reflete!

Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!

Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

               

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!.

       (“Lisbon Revisited, 1923”. Poesias de Álvaro de Campos, 1983, pp. 94-95).

 

Ainda, em alguns trechos de sua obra, Álvaro se aproximou do seu mestre, Caeiro, a quem, em um poema, também confessou não ter aprendido com ele a serenidade e a calma que o caracterizavam como mestre. Na perspectiva do não-pensar de Caeiro, Campos escreveu, sem conseguir distinguir claramente se a sensação lhe era boa ou lhe trazia dor:

Não estou pensando em nada

E essa coisa central, que é coisa nenhuma,

É-me agradável como o ar da noite,

Fresco em contraste com o verão quente do dia.

 

Não estou pensando em nada, e que bom!

 

Pensar em nada

É ter a alma própria e inteira.

Pensar em nada

É viver intimamente

O fluxo e o refluxo da vida…

Não estou pensando em nada.

É como se me tivesse encostado mal.

Uma dor nas costas, ou num lado das costas,

Há um amargo de boca na minha alma:

É que, no fim das contas,

Não estou pensando em nada,

Mas realmente em nada,

Em nada….

                          (Poesias de Álvaro de Campos, 1983, p. 173).

 

Foi o heterônimo que mais se aproximou da terceira fase do modernismo português. O mais próximo do realismo.

CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Panorama da literatura portuguesa – ensino médio. 2ª ed. rev. e ampl. São Paulo: Atual, 1997.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. 26ª ed. ver. e ampl. São Paulo: Cultrix, 1991.

PESSOA, Fernando. Antologia poética. Int. e seleção de Walmir Ayala. 2ª ed. reform. São Paulo: Ediouro, 2001. – (Coleção antologias).