Thami

De acordo com a biografia criada pelo próprio Pessoa, Ricardo Reis nasceu 1887, logo depois de ter ouvido uma discussão sobre excessos da arte moderna, que o fez ficar pensando e imaginando uma teoria neoclássica. Ricardo Reis foi médico e fixou residência no Brasil desde 1919. Reis era monarquista, educado em colégio de jesuítas, amantes das culturas gregas e latinas.

Buscou sempre o impossível em sua poesia, esta era neoclássica, de métrica perfeita, com linguagem bem trabalhada e vocabulário rebuscado.

Principais características:

  • Tradição clássica, ligada à mitologia pagã
  • Epicurista triste
  • Consciência de passagem rápida do tempo
  • Concisa
  • Elíptica
  • Acredita que a emoção poderia ser controlada pela razão

Participou bastante da revista Presença, da denominada 2ª fase do modernismo português.

Sua poesia tinha um pouco do paganismo de Alberto Caeiro. Um paganismo consciente, pois para ele tudo passava e perdia o sentido diante da morte inevitável.

Entre seus temas recorrentes podemos citar o do sofrimento diante dos mistérios da vida e da morte e as relações com as suas musas, Lídia, Neera e Cloe.

Segundo a avaliação de Pessoa, “Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado”.

Algumas obras:

Tudo que cessa é morte, e a morte é nossa

Se é para nós que cessa. Aquele arbusto

         Fenece, e vai com ele

         Parte da minha vida.

Em tudo quanto olhei fiquei em parte.

Com tudo quanto vi, se passa, passo,

         Nem distingue a memória

         Do que vi do que fui.

                                            (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 132).

 

Em seus poemas, Reis convidava as pastoras Lídia, Neera e Cloe, a acompanhá-lo nos seus momentos de dor e de prazer, sempre sérios e regrados, de forma equilibrada e serena:

Prazer, mas devagar,

Lídia, que a sorte àqueles não é grata

         Que lhe das mãos arrancam.

Furtivos retiremos do horto mundo

         Os depredandos pomos.

Não despertemos, onde dorme, a Erínis

         Que cada gozo trava.

Como um regato, mudos passageiros,

         Gozemos escondidos.

A sorte inveja, Lídia. Emudeçamos

                                                        (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 122).

 

Lenta, descansa a onda que a maré deixa,

Pesada cede. Tudo é sonegado.

         Só o que é de homem se ouve.

         Cresce a vinda da lua.

Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloe,

Qualquer de vós me é estranha, que me inclino

         Para o segredo dito

         Pelo silêncio incerto.

Tomo nas mãos, como caveira, ou chave

De supérfluo sepulcro, o meu destino,

         E ignaro o aborreço

         Sem coração que o sinta.

                                            (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 129).

 

A natureza em Reis era mantida com o fascínio que tinha Caeiro pela mesma, só que em Ricardo de maneira mais neoclássica, outra característica sua. Adepto do Lócus Amoenus (local ameno) e do Carpe Diem (aproveitar o dia), apresentou a busca pelo equilíbrio contido nos clássicos. A simplicidade natural passou a ser cuidadosamente estudada com ele:

Coroai-me de rosas,

Coroai-me em verdade

         De rosas –

Rosas que se apagam

Em fronte a apagar-se

         Tão cedo!

Coroai-me de rosas

E de folhas breves.

         E basta.

                    (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 77).

Para ser grande, sê inteiro: nada

         Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

         No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

         Brilha, porque alta vive.

                                            (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 146).

 

Seus poemas eram odes, poemas líricos, com métrica, estrofes regulares e variáveis, diferentemente de Caeiro. Suas odes voltavam-se aos deuses da mitologia grega. Ao contrário de seu mestre, Reis pensava bastante nos deuses, esses que, para ele, controlavam o destino dos homens e estavam acima de tudo:

O Deus Pã não morreu,

Cada campo que mostra

Aos sorrisos de Apolo

Os peitos nus de Ceres –

Cedo ou tarde vereis

Por lá aparecer

O deus Pã, o imortal.

 

Não matou outros deuses

O triste deus cristão.

Cristo é um deus a mais,

Talvez um que faltava.

Pã continua a dar

Os sons da sua flauta

Aos ouvidos de Ceres

Recumbente nos campos.

 

Os deuses são os mesmos,

Sempre claros e calmos,

Cheios de eternidade

E desprezo por nós,

Trazendo o dia e a noite

E as colheitas douradas

Sem ser para nos dar

O dia e a noite e o trigo

Mas por outro e divino

Propósito casual.

                                (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 78).

 

Só esta liberdade nos concedem

Os deuses: submetermo-nos

Ao seu domínio por vontade nossa.

Mais vale assim fazermos

Porque só na ilusão da liberdade

A liberdade existe.

(…)

Nós, imitando os deuses,

Tão pouco livres como eles no Olimpo,

Como quem pela areia

Ergue castelos para encher os olhos,

Ergamos nossa vida

E os deuses saberão agradecer-nos

O sermos tão como eles.

                                            (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 93).

 

Esta realidade os deuses deram

E para bem real a deram externa.

         Que serão os meus sonhos

         Mais que a obra dos deuses?

 

Deixai-me a Realidade do momento

E os meus deuses tranqüilos e imediatos

         Que não moram no Vago

         Mas nos campos e rios.

                                            (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 96).

 

Para os Deuses as coisas são mais coisas.

Não mais longe eles vêem, mas mais claro

Na certa Natureza

E a contornada vida…

Não no vago que mal vêem

Orla misteriosamente os seres,

Mas nos detalhes claros

Estão seus olhos.

A Natureza é só uma superfície.

Na sua superfície ela é profunda

E tudo contém muito

Se os olhos bem olharem.

Aprende, pois, tu, das cristãs angústias,

Ó traidor à multíplice presença

Dos deuses, a não teres

Véus nos olhos nem na alma.

                                            (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 157).

 

Entretanto, mesmo diferente de Caeiro no que se referia à ligação com algum Deus, Reis apresentou alguns versos e odes próximos do que pregava Caeiro: o apego à natureza, a solidão e o não-pensar, ainda assim este devotado aos deuses.

Segue o teu destino,

Rega tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias.

 

A realidade

Sempre é mais ou menos

Do que nós queremos.

Só nós somos sempre

Iguais a nós-próprios.

 

Suave é viver só.

Grande e nobre é sempre

Viver simplesmente.

Deixar a dor nas aras

Como ex-voto aos deuses.

 

Vê de longe a vida.

Nunca a interrogues.

Ela nada pode

Dizer-te. A resposta

Está além dos deuses.

 

Mas serenamente

Imita o Olimpo

No teu coração.

Os deuses são deuses

Porque não pensam.

                                (grifos meus). (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 109).

 

 

Substituindo, nos dois últimos versos desta ode, “deuses” por “homens”, os versos encaixam-se ao pensamento de Caeiro, para quem o homem devia não pensar para viver. Somente sentir e ver.

E também Reis assemelhava-se em determinados momentos de sua produção ao seu irmão Álvaro de Campos, no niilismo pregado por este:

Nada fica de nada. Nada somos.

Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos

Da irrespirável treva que nos pese

Da humilde terra imposta,

Cadáveres adiados que procriam.

 

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas –

Tudo tem cova sua. Se nós, carnes

A que um íntimo sol dá sangue, temos

Poente, por que não elas?

Somos contos contando contos, nada.

                                (grifos meus). (Odes de Ricardo Reis, 1983, p. 146).

 

Bibliografia:

ALBERTI, V. “Um drama em gente: trajetórias e projetos de Pessoa e seus heterônimos.” Em: SCHMIDT, B. (org.). O biográfico: perspectivas interdisciplinares

Odes de Ricardo Reis – Fernando Pessoa Volume 516 da Coleção L&PM POCKET

http://cpdoc.fgv.br/producao_intelectual/arq/1525.pdf

http://www.fpessoa.com.ar/heteronimos.asp?Heteronimo=ricardo_reis

http://revistaescola.abril.com.br/ensino-medio/estudo-heteronimos-fernando-pessoa-573739.shtm

http://www.recantodasletras.com.br/homenagens/1014102